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BEIRAIS - site literário
Poetas diversos

Nesta página reproduzirei alguns belíssimos poemas de grandes mestres.


 


                     


               Mário Quintana


              


                       A carta


 


Hoje encontrei dentro de um livro uma velha carta 


                                                           amarelecida


, rasguei-a sem procurar ao menos saber de quem seria...


Eu tenho um medo


 horrível


a essas marés montantes do passado,


com suas quilhas afundadas, com


meus sucessivos cadáveres amarrados aos mastros


                                                                     e gáveas...


Ai de mim,


ai de ti, ó velho mar profundo,


eu venho sempre à tona de todos os naufrágios!


 


                         O baú


 


Como estranhas lembranças de outras vidas


que outros viveram, num estranho mundo,


quantas coisas perdidas e esquecidas


no teu baú de espantos... Bem no fundo,


 


uma boneca toda estraçalhada!


(isto não são brinquedos de menino...


alguma coisa deve estar errada)


Mas o teu coração em desatino


 


 te traz de súbito uma ideia louca:


é ela, sim! Só pode ser aquela


 a jamais esquecida Bem-Amada.


 


E em vão tentas lembrar o nome dela...


e em vão ela te fita... e a sua boca


 tenta sorrir-te, mas está quebrada!


 


                 O autorretrato


 


 


No retrato que me faço


- traço a traço -


às vezes me pinto nuvem,


às vezes me pinto árvore...


 


Às vezes me pinto coisas


 de que nem há mais lembrança


ou coisas que não existem


 mas que um dia existirão...


 


E, desta lida, em que busco


- pouco a pouco -


minha eterna semelhança,


 


no final, que restará?


Um desenho de criança...


corrigido por um louco!


 


 


 


             LÊDO IVO


 


           O olhar de Deus


 


A escada do bordel range sob nossos pés..


Na poeira do tapete esfiapado


oculta-se o olhar de Deus.


Não somos dignos de ter a altíssima testemunha


na hora em que pecamos.


Melhor fora que nenhum deus nos observasse


                                               quando fornicamos


ou quando, após o coito, acendemos


                                             um cigarro.


Não somos dignos de piedade.


Melhor fora que Deus não existisse


 e vivêssemos todos fora do Seu Olhar incômodo.


 


 Estação de Tratamento


 


A gaivota


 sobrevoa


o semáforo.


 


Nenhum rumor de água


Nenhum frêmito de alga.


 


 Apenas os esgotos


 lançam no leve oceano


 o sigilo da vida.


 


HENRIQUETA LISBOA


 


                           Do cego


 


Para mim o mais triste


não é ver-te nos olhos


esse toldo de névoa


que te veda o espetáculo.


Porém a tua inépcia, a inépcia


com que descuras o espetáculo.


 


                        O ausente


 


Ele partiu inesperadamente


sem dizer a ninguém para onde ia


nem quando regressava.


Houve soluços à hora da partida.


Porém ele, tranquilo, não chorou.


Flores estranhas, veludosas e roxas,


envolveram-no todo num adeus.


Quem tanto amava as flores não sorriu


nem lhes aspirou o perfume.


Não houve entre os amigos seus


 talvez um que não viesse vê-lo à despedida.


Mas dessa vez ao que era o mais sensível


nenhum carinho comoveu.


Foi-se embora


caladamente


no seu mistério para sempre.


 


E a vida continou na mesma ronda


hora mais hora.


Talvez um dia doçura triste


alguém se lembre olhando longe: E o nosso amigo?


Em resposta dir-lhe- ão simplesmente; Morreu.


Porém no lar que foi o mundo seu


cada dia a saudade avulta e cresce


de tal maneira que parece,


ao abrir-se uma porta, que ele surge


de súbito, sereno


como quando habitou entre nós.


Tem-se a impressão de que ele fala e sua voz


conserva a mesma unçaõ de prece


e seu gesto traduz uma benção perene.


 


Se acaso perguntar algum estranho


 quem nesta casa ocupa o mais alto lugar,


quem à mesa preside, quem governa


atos e corações no redil familiar,


responderão em coro as seis vozes dolentes,


esposa e filhas para as quais viveu:´


- É ele, o Ausente.


 


              Noturno


 


Meu pensamento em febre


é uma lâmpada acesa


 a incendiar a noite.


 


Meus desejos irrequietos,


à hora em que não há socorro,


 


dançam livres como libélulas


em redor do fogo.


 


CECÍLIA MEIRELES


 


               Motivo


 


Eu canto porque o instante existe


e a minha vida está completa.


Não sou alegre nem sou triste


sou poeta.


 


Irmão das coisas fugidias,


não sinto gozo nem tormento.


Atravesso noites e dias


no vento.


 


Se desmorono ou se edifico,


se permaneço ou me desfaço.


- não sei, não sei. Não sei se fico


 ou passo.


 


Sei que canto. E a canção é tudo.


Tem sangue eterno a asa ritmada.


E um dia sei que estarei mudo:


- mais nada.


 


MENOTTI DEL PICCHIA


 


                       O voo


 


Goza a euforia do anjo perdido em ti


não indagues se nossas estradas,


tempo e vento desabam no abismo.


Que sabes tu do fim?


Se temes que teu mistério seja uma noite


 enche-a de estrelas.


Conserva a ilusão de que teu voo


te leva sempre para o mais alto.


No deslumbramento da ascensão


se pressentires que amanhã estarás mudo


esgota, como um pássaro,


as canções que tens na garganta.


 


Canta.


Canta para conservar uma ilusão


de festa e de vitória.


Talvez as canções adormeçam as feras


que esperam devorar o pássaro.


Desde que nasceste


não és mais que um voo no tempo.


Rumo do céu? Que importa a rota?


Voa e canta enquanto resistirem as asas.


 


 PAULO MENDES CAMPOS


 


           


               Epitáfio


 


Se a treva fui, por pouco fui feliz.


Se acorrentou-me o corpo, eu o quis.


Se Deus foi a doença, fui a saúde.


Se Deus foi o meu bem, fiz o que pude.


Se a luz era visível, me enganei.


Se eu era o só, o só então amei.


Se Deus era a mudez, ouvi alguém.


Se o tempo era o meu fim, fui muito além.


Se Deus era de pedra, em vão sofri.


Se o bem foi nada, o mal foi um momento.


Se fui sem ir nem ser, fiquei aqui.


Para que me reflitas e me fites


estas turvas pupilas de cimento:


se devo a vida à morte, estamos quites.


 


                O morto


 


Por que celeste transtorno tarda-me o cosmo


do sangue o óleo grosso do morto?


Por que ver pelo meu olho? Por que usar o meu corpo?


Se eu sou vivo e ele é morto?


 


Por que pacto inconsentido faz do meu peito


 intermédio do peito ausente do morto?


Porque a tara do morto é inserir sua pele


entre o meu e o outro corpo.


Se for do gosto do morto


o que como com desgosto


come o morto em minha boca.


 


Que secreto desacordo!


Ser apenas o entreposto


de um corpo vivo e outro morto!


 


 


Cora Coralina


 


               


            Velho sobrado


 


 


Um montão disforme. Taipas e pedras,


abraçadas a grossas aroeiras,


toscamente esquadriadas.


Folhas de janelas.


Pedaços de batentes.


Almofadados de portas.


Vidraças estilhaçadas.


Ferragens retorcidas.

Abandono. Silêncio. Desordem.


Ausência, sobretudo.


O avanço vegetal acoberta o quadro.


Carrapateiras cacheadas.


São-caetano com seu verde planejamento,


pendurado de frutinhas ouro-rosa.


Uma bucha de cordoalha enfolhada,


berrante de flores amarelas


cingindo tudo.


Dá guarda, perfilado, um pé de mamão-macho.


No alto, instala-se, dominadora,


uma jovem gameleira, dona do futuro.


Cortina vulgar de decência urbana


defende a nudez dolorosa das ruínas do sobrado


— um muro.


Fechado. Largado.


O velho sobrado colonial


de cinco sacadas,


de ferro forjado,


cede.


Bem que podia ser conservado,


bem que devia ser retocado,


tão alto, tão nobre-senhorial.


O sobradão dos Vieiras


cai aos pedaços,


abandonado.


Parede hoje. Parede amanhã.


Caliça, telhas e pedras


se amontoando com estrondo.


Famílias alarmadas se mudando.


Assustados - passantes e vizinhos.


Aos poucos, a " fortaleza " desabando.


Quem se lembra?


Quem se esquece?


Padre Vicente José Vieira.


D. Irena Manso Serradourada.


D. Virgínia Vieira


- grande dama de outros tempos.


Flor de distinção e nobreza


na heráldica da cidade.


Benjamim Vieira,


Rodolfo Luz Vieira,


Ludugero,


Angela,


Débora, Maria...


tão distante a gente do sobrado...

Bailes e saraus antigos.


Cortesia. Sociedade goiana.


Senhoras e cavalheiros...


-tão desusados...


O Passado...


A escadaria de patamares


vai subindo... subindo...


Portas no alto.


À direita. À esquerda.


Se abrindo, familiares.


Salas. Antigos canapés.


Cadeiras em ordem.


Pelas paredes forradas de papel,


desenho de querubins, segurando


cornucópia e laços.


Retratos de antepassados,


solenes, empertigados.


Gente de dantes.


Grandes espelhos de cristal,


emoldurados de veludo negro.


Velhas credências torneadas


sustentando


jarrões pesados.


Antigas flores


de que ninguém mais fala!


Rosa cheirosa de Alexandria.


Sempre-viva. Cravinas.


Damas-entre-verdes.


Jasmim-do-cabo. Resedá.


Um aroma esquecido


- manjerona.


         


                     O passado


 


 


O salão da frente recende a cravo.


Um grupo de gente moça


se reúne ali.


"Clube Literário Goiano".


Rosa Godinho.


Luzia de Oliveira.


Leodegária de Jesus,


a presidência.



Nós, gente menor,


sentadas, convencidas, formais.


Respondendo à chamada.


Ouvindo atentas a leitura da ata.


Pedindo a palavra.


Levantando idéias geniais.


Encerrada a sessão com seriedade,


passávamos à tertúlia.


O velho harmônio, uma flauta, um bandolim.


Músicas antigas. Recitativos.


Declamavam-se monólogos.


Dialogávamos em rimas e risos.



D. Virgínia. Benjamim.


Rodolfo. Ludugero.


Veros anfitriões.


Sangrias. Doces. Licor de rosa.


Distinção. Agrado.


O Passado...


Homens sem pressa,


talvez cansados,


descem com leva


madeirões pesados,


lavrados por escravos


em rudes simetrias,


do tempo das acutas.


Inclemência.


Caem pedaços na calçada.


Passantes cautelosos


desviam-se com prudência.


Que importa a eles o sobrado?



Gente que passa indiferente,


olha de longe,


na dobra das esquinas,


as traves que despencam.


-Que vale para eles o sobrado?


Quem vê nas velhas sacadas


de ferro forjado


as sombras debruçadas?


Quem é que está ouvindo


o clamor, o adeus, o chamado?...


Que importa a marca dos retratos na parede?


Que importam as salas destelhadas,


e o pudor das alcovas devassadas...


Que importam?



E vão fugindo do sobrado,


aos poucos,


os quadros do Passado.


 


 


 


 


 


   


          Poema do milho 


 


 


Milho...


Punhado plantado nos quintais.


Talhões fechados pelas roças.


Entremeado nas lavouras,


Baliza marcante nas divisas.


Milho verde. Milho seco.


Bem granado, cor de ouro.


Alvo. Às vezes vareia,


- espiga roxa, vermelha, salpintada.


 


Milho virado, maduro, onde o feijão enrama


Milho quebrado, debulhado


na festa das colheitas anuais.


Bandeira de milho levada para os montes


largada pelas roças:


Bandeiras esquecidas na fartura.


Respiga descuidada


dos pássaros e dos bichos.


 


Milho empaiolado...


Abastança tranqüila


do rato,


do caruncho.


do cupim.


Palha de milho para o colchão.


Jogada pelos pastos.


Mascada pelo gado.


Trançada em fundos de cadeiras.


Queimada nas coivaras.


Leve mortalha de cigarros.


Balaio de milho trocado com o vizinho


no tempo da planta.


"- Não se planta, nos sítios, semente da mesma terra".


 


Ventos rondando, redemoinhando.


Ventos de outubro.


 


Tempo mudado. Revôo de saúva.


Trovão surdo, tropeiro.


Na vazante do brejo, no lameiro,


o sapo-fole, o sapo-ferreiro, o sapo-cachorro.


Acauã de madrugada


marcando o tempo, chamando chuva.


Roça nova encoivarada,


começo de brotação.


Roça velha destocada.


Palhada batida, riscada de arado.


Barrufo de chuva.


Cheiro de terra; cheiro de mato,


Terra molhada, Terra saroia.


Noite chuvada, relampeada.


Dia sombrio. Tempo mudado, dando sinais.


Observatório: lua virada. Lua pendida...


Circo amarelo, distanciado,


marcando chuva.


Calendário, Astronomia do lavrador.


 


Planta de milho na lua-nova.


Sistema velho colonial.


Planta de enxada.


Seis grãos na cova,


quatro na regra, dois de quebra.


Terra arrastada com o pé,


pisada, incalcada, mode os bichos.


Lanceado certo-cabo-da-enxada...


Vai, vem... sobe, desce...


terra molhada, terra saroia...


Seis grãos na cova; quatro na regra, dois de quebra


Sobe. Desce...


Camisa de riscado, calça de mescla


Vai, vem...


golpeando a terra, o plantador.


 


Na sombra da moita,


na volta do toco - o ancorote d'água:


 


Cavador de milho, que está fazendo?


A que milênios vem você plantando.


Capanga de grãos dourados a tiracolo.


Crente da Terra, Sacerdote da terra.


Pai da terra.


Filho da terra.


Ascendente da terra.


Descendente da terra.


Ele, mesmo, terra.


 


Planta com fé religiosa.


Planta sozinho, silencioso.


Cava e planta.


Gestos pretéritos, imemoriais...


Oferta remota; patriarcal.


Liturgia milenária.


Ritual de paz.


 


Em qualquer parte da Terra


um homem estará sempre plantando,


recriando a Vida.


Recomeçando o Mundo.


 


Milho plantado; dormindo no chão, aconchegados


seis grãos na cova.


Quatro na regra, dois de quebra.


Vida inerte que a terra vai multiplicar


Evém a perseguìção:


o bichinho anônimo que espia, pressente.


A formiga-cortadeira - quenquém.


A ratinha do chão, exploradeira.


A rosca vigilante na rodilha,


O passo-preto vagabundo, galhofeiro,


vaiando, sorrindo...


aos gritos arrancando, mal aponta.


O cupim clandestino


roendo, minando,


só de ruindade.


 


E o milho realiza o milagre genético de nascer:


Germina. Vence os inimigos,


Aponta aos milhares.


- Seis grãos na cova.


- Quatro na regra, dois de quebra,


Um canudinho enrolado.


Amarelo-pálido,


frágil, dourado, se levanta.


Cria sustância.


Passa a verde.


Liberta-se. Enraíza,


Abre folhas espaldeiradas.


Encorpa. Encana. Disciplina,


com os poderes de Deus.


 


Jesus e São João


desceram de noite na roça,


botaram a bênção no milho,


E veio com eles


uma chuva maneira, criadeira, fininha,


uma chuva velhinha,


de cabelos brancos,


abençoando


a infância do milho.


 


O mato vem vindo junto,


Sementeira.


As pragas todas, conluiadas.


Carrapicho. Amargoso. Picão.


Marianinha. Caruru-de-espinho.


Pé-de-galinha. Colchão.


Alcança, não alcança.


Competição.


Pac... Pac... Pac...


a enxada canta.


Bota o mato abaixo.


arrasta uma terrinha para o pé da planta.


"...- Carpa bem feita vale por duas..."


Quando pode. Quando não... sarobeia.


Chega terra O milho avoa.


 


Cresce na vista dos olhos.


Aumenta de dia. Pula de noite.


Verde Entonado, disciplinado, sadio.


 


Agora...


A lagarta da folha,


lagarta rendeira...


Quem é que vê?


Faz a renda da folha no quieto da noite.


Dorme de dia no olho da planta,


Gorda; Barriguda. Cheia.


Expurgo: nada... força da lua..,


Chovendo acaba - a Deus querê.


 


"O mio tá bonito..."


"-Vai sê bão o tempo pras lavoras todas."


"-O mio tá marcando..."


Condieionando o futuro:


"- O roçado de seu Féli tá qui fais gosto...


Um refrigério"


"- O mio lá tá verde qui chega a s'tar azur..."


- Conversam vizinhos e compadres.


 


Milho crescendo, garfando,


esporando nas defesas...


Milho embandeirado.


Embalado pelo vento.


 


"Do chão ao pendão, 60 dias vão".


 


Passou aguaceiro, pé-de-vento.


"- O milho acamou..." "- Perdido?"... Nada...


Ele arriba com os poderes de Deus..."


E arribou mesmo; garboso, empertigado, vertical


 


No cenário vegetal


um engraçado boneco de frangalhos


sobreleva, vigilante.


Alegria verde dos periquitos gritadores...


Bandos em seqüência... Evolução...


Pouso... retrocesso.


 


Manobras em conjunto.


Desfeita formação.


Roedores grazinando, se fartando,


foliando, vaiando


os ingênuos espantalhos.


 


"Jesus e São João


andaram de noite passeando na lavoura


e botaram a bênção no milho".


Fala assim gente de roça e fala certo.


Pois não está lá na taipa do rancho


o quadro deles, passeando dentro dos trigais?


Analogias... Coerências.


 


Milho embandeirado


bonecando em gestação.


- Senhor!... Como a roça cheira bem!


Flor de milho, travessa e festiva.


Flor feminina, esvoaçante, faceira.


Flor masculina - lúbrica, desgraciosa.


Bonecas de milho túrgidas,


negaceando, se mostrando vaidosas.


Túnicas, sobretúnicas...


saias, sobre-saias...


Anáguas... camisas verdes.


Cabelos verdes...


- Cabeleiras soltas, lavadas, despenteadas...


- O milharal é desfile de beleza vegetal.


Cabeleiras vermelhas, bastas, onduladas.


Cabelos prateados, verde-gaio.


Cabelos roxos, lisos, encrespados.


Destrançados.


Cabelos compridos, curtos,


queimados, despenteados.


Xampu de chuvas...


Flagrâncias novas no milharal.


- Senhor, como a roça cheira bem!...


 


As bandeiras altaneiras


vão se abrindo em formação.


Pendões ao vento.


Extravasão da libido vegetal.


procissão fálica, pagã.


Um sentido genésico domina o milharal.


Flor masculina erótica, libidinosa,


polinizando, fecundando


a florada adolescente das bonecas:


 


Boneca de milho, vestida de palha...


Sete cenários defendem o grão


Gordas, esguias, delgadas; alongadas


Cheias, fecundadas.


Cabelos soltos excitantes.


Vestidas de palha.


Sete cenários defendem o grão,


Bonecas verdes, vestidas de noiva


Afrodisíacas, nupciais...


De permeio algumas virgens loucas...


Descuidadas. Desprovidas.


Espigas falhadas. Fanadas. Macheadas.


 


Cabelos verdes. Cabelos brancos.


Vermelho-amarelo-roxo, requeimado...


E o pólen dos pendões fertilizando...


Uma fragrância quente, sexual


invade num espasmo o milharal.


 


A boneca fecundada vira espiga.


Amortece a grande exaltação.


Já não importam as verdes cabeleiras rebeladas


A espiga cheia salta da haste.


O pendão fálico vira ressecado, esmorecido,


No sagrado rito da fecundação.


 


Tons maduros de amarelo.


Tudo se volta para a terra-mãe.


O tronco seco é um suporte, agora,


onde o feijão verde trança, enrama, enflora.


 


Montes de milho novo, esquecidos,


marcando claros no verde que domina a roça.


Bandeiras perdidas na fartura das colheitas.


Bandeiras largadas, restolhadas.


E os bandos de passo-pretos galhofeiros


gritam e cantam na respiga das palhadas.


 


"Não andeis a respigar" - diz o preceito bíblico


O grão que cai é o direito da terra.


A espiga perdida - pertence às aves


que têm seus ninhos e filhotes a cuidar.


Basta para ti, lavrador,


o monte alto e a tulha cheia.


Deixa a respiga para os que não plantam nem colhem


- O pobrezinho que passa.


- Os bichos da terra e os pássaros do céu.


 


 


 Florbela Espanca


 


         


             Fanatismo


Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida


Meus olhos andam cegos de te ver !


Não és sequer a razão do meu viver,


Pois que tu és já toda a minha vida !


 


Não vejo nada assim enlouquecida ...


 Passo no mundo, meu Amor, a ler


No misterioso livro do teu ser


A mesma história tantas vezes lida !


 


"Tudo no mundo é frágil, tudo passa ..."


Quando me dizem isto, toda a graça


Duma boca divina fala em mim !


 


E, olhos postos em ti, digo de rastros :


"Ah ! Podem voar mundos, morrer astros,


Que tu és como Deus : Princípio e Fim ! ..."


 


 


 


 


Eu ...


Eu sou a que no mundo anda perdida,


Eu sou a que na vida não tem norte,


Sou a irmã do Sonho,e desta sorte


Sou a crucificada ... a dolorida ...



Sombra de névoa tênue e esvaecida,


E que o destino amargo, triste e forte,


Impele brutalmente para a morte!


Alma de luto sempre incompreendida!...



Sou aquela que passa e ninguém vê...


Sou a que chamam triste sem o ser...


Sou a que chora sem saber porquê...


 


Sou talvez a visão que Alguém sonhou,


Alguém que veio ao mundo pra me ver,


E que nunca na vida me encontrou!


 


 Mistério



Gosto de ti, ó chuva, nos beirados,


Dizendo coisas que ninguém entende!


Da tua cantilena se desprende


Um sonho de magia e de pecados.



Dos teus pálidos dedos delicados


Uma alada canção palpita e ascende,


Frases que a nossa boca não aprende,


Murmúrios por caminhos desolados.



Pelo meu rosto branco, sempre frio,


Fazes passar o lúgubre arrepio


Das sensações estranhas, dolorosas…



Talvez um dia entenda o teu mistério…


Quando, inerte, na paz do cemitério,


O meu corpo matar a fome às rosas!


 


 


Sonhos



Ter um sonho, um sonho lindo,


Noite branda de luar,


Que se sonhasse a sorrir...


Que se sonhasse a chorar...



Ter um sonho, que nos fosse


A vida, a luz, o alento,


Que a sonhar beijasse doce


A nossa boca... um lamento...



Ser pra nós o guia, o norte,


Na vida o único trilho;


E depois ver vir a morte



Despedaçar esses laços!...


...É pior que ter um filho


Que nos morresse nos braços!
 


 


 


 Adélia Prado


 


Impressionista


Uma ocasião,


meu pai pintou a casa toda


de alaranjado brilhante.


Por muito tempo moramos numa casa,


como ele mesmo dizia,


constantemente amanhecendo.  


 


Ensinamento


Minha mãe achava estudo


a coisa mais fina do mundo.


Não é.


A coisa mais fina do mundo é o sentimento.


Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,


ela falou comigo:


"Coitado, até essa hora no serviço pesado".


Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente.


Não me falou em amor.


Essa palavra de luxo.


 


 


Pranto Para Comover Jonathan


 

Os diamantes são indestrutíveis?


Mais é meu amor.


O mar é imenso?


Meu amor é maior,


mais belo sem ornamentos


do que um campo de flores.


Mais triste do que a morte,


mais desesperançado


do que a onda batendo no rochedo,


mais tenaz que o rochedo.


Ama e nem sabe mais o que ama.


 


 


 Exausto


Eu quero uma licença de dormir,



perdão pra descansar horas a fio,


sem ao menos sonhar


a leve palha de um pequeno sonho.


Quero o que antes da vida


foi o sono profundo das espécies,


a graça de um estado.


Semente.


Muito mais que raízes.


 


 


 Poema Começado no Fim


Um corpo quer outro corpo.


Uma alma quer outra alma e seu corpo.


Este excesso de realidade me confunde.


Jonathan falando:


parece que estou num filme.


Se eu lhe dissesse você é estúpido


ele diria sou mesmo.


Se ele dissesse vamos comigo ao inferno passear


eu iria.


As casas baixas, as pessoas pobres,


e o sol da tarde,


imaginai o que era o sol da tarde


sobre a nossa fragilidade.


Vinha com Jonathan


pela rua mais torta da cidade.


O Caminho do Céu.


 


  


  


Eunice Arruda


 


TENTATIVA

Quis
ressuscitar
o morto

Não consegui

Ele não me ouviu
como Lázaro
a Cristo

Preferiu a morte
e a minha inutilidade

EUNICE ARRUDA (do livro "À beira", Blocos Editora, 1999, RJ/RJ)


 


 


ENTÃO

As forças me regem

Me põem em um caminho
me afastam deste caminho

E eu vou provando o mundo
todos os lados
todos os gostos
até que rota exausta exata
as forças me entreguem

À outra roda

EUNICE ARRUDA
(do livro "Debaixo do sol", Ateliê Editorial, 2010)


 


 


ASSIM

Nada
devo pedir
Sei o que quero
não sei o que me
quer. Então
ergo o rosto ao sol
e sigo – visível – ao
destino

EUNICE ARRUDA
(do livro "Debaixo do sol", Ateliê Editorial, 2010)


 


Fernando Pessoa


 


 O ANDAIME


O tempo que eu hei sonhado
Quantos anos foi de vida!
Ah, quanto do meu passado
Foi só a vida mentida
De um futuro imaginado!


Aqui à beira do rio
Sossego sem ter razão.
Este seu correr vazio
Figura, anônimo e frio,
A vida vivida em vão.


A 'sp'rança que pouco alcança!
Que desejo vale o ensejo?
E uma bola de criança
Sobre mais que minha 's'prança,
Rola mais que o meu desejo.


Ondas do rio, tão leves
Que não sois ondas sequer,
Horas, dias, anos, breves
Passam - verduras ou neves
Que o mesmo sol faz morrer.


Gastei tudo que não tinha.
Sou mais velho do que sou.
A ilusão, que me mantinha,
Só no palco era rainha:
Despiu-se, e o reino acabou.


Leve som das águas lentas,
Gulosas da margem ida,
Que lembranças sonolentas
De esperanças nevoentas!
Que sonhos o sonho e a vida!


Que fiz de mim? Encontrei-me
Quando estava já perdido.
Impaciente deixei-me
Como a um louco que teime
No que lhe foi desmentido.


Som morto das águas mansas
Que correm por ter que ser,
Leva não só lembranças -
Mortas, porque hão de morrer.


Sou já o morto futuro.
Só um sonho me liga a mim -
O sonho atrasado e obscuro
Do que eu devera ser - muro
Do meu deserto jardim.


Ondas passadas, levai-me
Para o alvido do mar!
Ao que não serei legai-me,
Que cerquei com um andaime
A casa por fabricar.


 


DOBRE


 


 Peguei no meu coração
E pu-lo na minha mão


Olhei-o como quem olha
Grãos de areia ou uma folha.


Olhei-o pávido e absorto
Como quem sabe estar morto;


Com a alma só comovida
Do sonho e pouco da vida.


 


ANÁLISE


Tão abstrata é a ideia do teu ser
Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longemente,
E a idéia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.


 


 AUTOPSICOGRAFIA


 


O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.


E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.


E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.


 


 


 AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA


 


 


O Duplo


 


 


Debaixo de minha mesa


 tem sempre um cão faminto


 


-que me alimenta a tristeza.


 


Debaixo de minha cama


 


tem sempre um fantasma vivo


 


-que perturba quem me ama.


 


 


 


Debaixo de minha pele


 


alguém me olha esquisito


 


-pensando que eu sou ele.


 


 


 


Debaixo de minha escrita


 


há sangue em lugar de tinta


 


-e alguém calado que grita.


 


 


 


A Implosão da Mentira


 


(ou o episódio do Riocentro-fragmentos)


 


 


 Fragmento 1.


  


 Mentiram-me. Mentiram-me ontem


 


 e hoje mentem novamente. Mentem


 


 de corpo e alma, completamente.


 


 E mentem de maneira tão pungente


 


 que acho que mentem sinceramente.


 


 


 


 Mentem, sobretudo, impune/mente.


 


 Não mentem tristes. Alegremente


 


 mentem. Mentem tão nacional/mente


 


 que acham que mentindo história afora


 


 vão enganar a morte eterna/mente.


 


 


 


 Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases


 


 falam. E desfilam de tal modo nuas


 


 que mesmo um cego pode ver


 


 a verdade em trapos pelas ruas.


 


 


 


 Sei que a verdade é difícil


 


 e para alguns é cara e escura.


 


 Mas não se chega à verdade


 


 pela mentira, nem à democracia


 


 pela ditadura.


 


 


 


 Assombros


 


 


 


 Às vezes, pequenos grandes terremotos


 


 ocorrem do lado esquerdo do meu peito.


 


 Fora, não se dão conta os desatentos.


 


 


 


 Entre a aorta e a omoplata rolam


 


 alquebrados sentimentos.


 


 


 


 Entre as vértebras e as costelas


 


 há vários esmagamentos.


 


 


 


 Os mais íntimos


 


 já me viram remexendo escombros.


 


 Em mim há algo imóvel e soterrado


 


 em permanente assombro.


 


 


 


 


Cena Familiar


 


 Densa e doce paz na semiluz da sala.


 


 Na poltrona, enroscada e absorta, uma filha


 


 desenha patos e flores.


 


 Sobre o couro, no chão, a outra viaja silenciosa


 


 nas artimanhas do espião.


 


 Ao pé da lareira a mulher se ilumina numa gravura


 


 flamenga, desenhando, bordando pontos de paz.


 


 Da mesa as contemplo e anoto a felicidade


 


 que transborda da moldura do poema.


 


 A sopa fumegante sobre a mesa, vinhos e queijos,


 


 relembranças de viagens e a lareira acesa.


 


 Esta casa na neblina, ancorada entre pinheiros,


 


 é uma nave iluminada.


 


 Um oboé de Mozart torna densa a eternidade.


 


 


 


A PRIMEIRA VEZ QUE ENTENDI


 


A primeira vez que entendi do mundo


 


 alguma coisa


 


 foi quando na infância


 


 cortei o rabo de uma lagartixa


 


 e ele continuou se mexendo.


 


 


 


 De lá pra cá


 


 fui percebendo que as coisas permanecem


 


 vivas e tortas


 


 que o amor não acaba assim


 


 que é difícil extirpar o mal pela raiz.


 


 


 


 A segunda vez que entendi do mundo


 


 alguma coisa


 


 foi quando na adolescência me arrancaram


 


 do lado esquerdo três certezas


 


 e eu tive que seguir em frente.


 


 


 


 De lá pra cá


 


 aprendi a achar no escuro o rumo


 


 e sou capaz de decifrar mensagens


 


 seja nas nuvens


 


 ou no grafite de qualquer muro.


 


 


 


 


 


 


 


 


 


  


 


 


 

 
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